Esta é a madrugada que eu esperava
Tenho 35 anos. Nasci e cresci na democracia; vivo na liberdade de pensamento e de expressão; sou e estou grata por ter havido um 25 de Abril, feito por uns homens que, munidos com a esperança de um país melhor, rumaram à capital apenas com a sua fé que aquela madrugada era a madrugada que muitos sonhavam.
Apesar de ver que, quarenta anos depois, os verdadeiros valores de Abril não são vividos, estou grata àqueles homens. Sem eles, eu não estaria aqui a gritar bem alto que vivemos, de facto, numa democracia camuflada, onde a comunicação social é orientada pelo poder, onde as mulheres ainda não são vistas de forma igual no ambiente laboral … Liberdade não é só dizer o que se pensa. Liberdade é respeito por si e pelo próximo e é aqui que verdadeiramente falhamos. Liberdade não é anarquia, não é desordem. Liberdade é respeito pelo teu pensamento e pelo pensamento do outro.
Esta foi, de facto, a madrugada que muitos esperaram, que alguns fizeram e que todos vivem.
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.”
Sophia de Mello Breyner Adresen, in O Nome das Coisas