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The Nameless Blog

Já foi “Som das Letras” e um narcisista “Blogue da Paula”. Foi um prolongamento da eterna ínsula, tendo sido denominado como “Ilha Paula”. Hoje, é um blogue sem nome para que seja aquilo que sempre foi: um blogue sobre tudo e nada.

The Nameless Blog

Já foi “Som das Letras” e um narcisista “Blogue da Paula”. Foi um prolongamento da eterna ínsula, tendo sido denominado como “Ilha Paula”. Hoje, é um blogue sem nome para que seja aquilo que sempre foi: um blogue sobre tudo e nada.

A barreira linguística

Não sei se o episódio é real ou ficção, mas é, provavelmente, do conhecimento geral dos micaelenses. Lia ontem em E assim me fiz ilha - o livro que apresentei ontem - e ri-me como uma perdida tentando imaginar o diálogo entre os teus participantes da hilariante conversa.

Ora leiam lá:

 

O episódio retrata o resultado de um diálogo de surdos. O vendedor, com a pronúncia da terra, e o turista francês: a incompreensão era biunívoca. O turista perguntou o nome da fruta: 'Comment s'appelle?' Respondeu o vendedor: 'não se come com a pele, esbruga-se'! O turista, tal como tu, ficou a ver navios e insistiu: 'comment?'. Diz o velhote: 'não é com a mão, é com uma navalhinha!' Responde o turista: 'je ne comprends pas'. Resposta imediata do vendedor: 'ame, não queres comprar vai à bardamerda.'

 

 

 

 

E assim me fiz ilha

Um dos locais de passagem obrigatória sempre que vou à Ilha é a livraria "Artes & Letras" - uma loja no mais antigo Centro Comercial de Ponta Delgada,  Solmar, que, apesar de ter a maioria das suas lojas encerradas, é um espaço agradável para quem procura um lugar sossegado, sem o corre-corre das grandes superfícies.

 

Localizado na Avenida Marginal da cidade, esse Centro Comercial alberga, no rés-do-chão, a livraria que, nos últimos anos, tem sido palco dos lançamentos dos escribas das Ilhas e é lá que eu vou sempre que sinto vontade de aumentar o número de livros, da já extensa biblioteca particular, que se debruçam da temática insular.

 

O eleito da última viagem foi E assim me fiz ilha, de Amélia Meireles, uma nortenha, nascida em Vila Nova de Gaia que, depois de viver em Angola desde os seus quatro anos, regressou à Pátria em 1976, fixando residência na ilha de São Miguel. 

 

Reza o desabafo da escritora na contra-capa:

 

As páginas que se seguem acolheram as memórias que descrevem o que foi aprender a viver a Açorianidade, a saga de quem se afoita a fazer sua esta terra tão singular. Era tempo de amar a terra que nos acolhera, aprender a construir um mundi cá dentro, tão nosso, tão ilhéu, que a dor da saudade mata quando a distância à ilha se faz presente. Só imbuídos da insularidade nos amarramos a este mar, a este chão ... Só a insularidade nos permite viver em harmonia dentro deste mar imesno ou saudosamente suspirando pela ilha que nos cativou.

Não cabe no livro o que aprendi para me sentir prisioneira desta ilha que, paulatinamente, me seduziu e se deixou cativar, fazendo-se pertença do meu espaço. À medida que o tempo passa, aprendo a perceber na pele de que lado o vento se anuncia.

E este olhar que se finca ao aqui alarga-se quando vou para fora e continuo a restar cá dentro, prisioneira das cores, dos cheiros, do mar, do céu e, assim, me fiz ilha!

 

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36 anos sem Nemésio

Nascido a 19 de Dezembro de 1901, na Praia da Vitória, ilha Terceira, Vitorino Nemésio foi poeta, escritor, ficcionista, cronita, ensaísta, biógrafo, historiados da literatura e da cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo - um intelectual, na verdadeira essência da palavra. Destacou-se como romancista, com a publicação do seu Mau Tempo no Canal, um clássico da literatura portuguesa do século XX. As suas raízes insulares, nunca esquecidas, o quotidiano da vida de um ilhéu e as recordações da sua infância, são temas que percorrem a sua obra, com a presença das coisas simples da vida e das suas gentes.

Hoje faz 36 anos que Vitorino desapareceu deste mundo e esta é a minha singela homenagem a um homem da Ilha. E que melhor homenagem, de um ilhéu para outro, do que transcrever um dos seus poemas?

     

Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

 

Vitorino Nemésio

 In, "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"