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The Nameless Blog

Já foi “Som das Letras” e um narcisista “Blogue da Paula”. Foi um prolongamento da eterna ínsula, tendo sido denominado como “Ilha Paula”. Hoje, é um blogue sem nome para que seja aquilo que sempre foi: um blogue sobre tudo e nada.

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Já foi “Som das Letras” e um narcisista “Blogue da Paula”. Foi um prolongamento da eterna ínsula, tendo sido denominado como “Ilha Paula”. Hoje, é um blogue sem nome para que seja aquilo que sempre foi: um blogue sobre tudo e nada.

No teu deserto, Miguel Sousa Tavares

Numa palavra?


Magnífico!!!


 


No teu deserto é o último lançamento de Miguel Sousa Tavares. Um "quase romance" como se pode ler na capa do livro.


Comprei-o no passado domingo, depois de ter dido a mim mesma que este mês não iria comprar mais nenhum livro, visto ler imensos em lista de espera para ler. Mas, a tentação foi maior do que a minha vontade, não resisti e comprei o livro. Um "quase romance" de 128 páginas que li em pouco mais de 3 horas.


Já é sabido por todos que Miguel Sousa Tavares é um viajante por natureza e que as suas viagens servem para inspiração para as suas obras, relanto-as de uma maneira tão real que nos faz viver o que as suas personagens vivem.


 


Segundo o semanário Sol, No teu deserto "parte de uma viagem que Miguel Sousa Tavares fez há vinte anos ao deserto do Sahara, onde conheceu uma mulher, Cláudia, que já morreu."


Escreve o autor na nota de intenções: «Passou-se comigo há vinte anos e muitas vezes pensei nela, sem nunca a contar a ninguém, guardando-a para mim, para nós que a vivemos. Talvez tivesse medo de estragar a lembrança desses longínquos dias, medo de mover, para melhor expor as coisas, essa fina camada de pó onde repousa, apenas adormecida, a memória dos dias felizes»


 


Contado a duas vozes, a de Cláudia e a do jornalista (que presumo ser o próprio Miguel Sousa Tavares), No teu deserto tem tudo para ser mais um best-seller.



Como é habitual, deixo-vos com algumas citações da obra, para vos abrir o apetite:


 


"Depois disso, voltei onze vezes ao Sahara (...) E, cada vez que voltei, pensei em ti e pensei como seria bom, voltar contigo. Nessas alturas, como nas outras, eu repetia a mim mesmo: 'Não há regresso. Há viagens sem regresso nem repetição'. Lembras-te quando, no último dos irrepetíveis dias daquela viagem, estávanos nós a amarrar em Gibraltar, debruçados na amurada do barco que nos tinha trazido de Marrocos durante a noite, olhando a manhã de Dezembro, limpa e deslumbrante sobre as águas quietas do Estreito, e tu me perguntaste:


- Em que pensas?


- Estava a pensar que há viagens sem regresso. E que nunca mais vou voltar desta viagem. Nunca mais vou regressar do deserto."


 


in, No teu deserto, pp. 114, Oficina do Livro, 1.ª edição


 


"Hoje já ninguém vai ao deserto, Cláudia. Os fundamentalistas islâmicos, como os de Laghouat, tornaram-se sanguinários e incontroláveis e os próprios tuaregues revoltaram-se contra o poder de Argel.


Mas a principal razão não é essa. A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo 'nada', eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. As coisas mudaram, Cláduia! Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes socias da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divestido, 'leves', disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.


Eu próprio não creio que lá volte mais. A menos que tu descesses das estrelas e quisesses vir comigo outra vez. Que pudéssemos ambos apagar todo o mal, todos os danos e todos os enganos, todos os anos perdidos que ficaram para trás, desde essa manhã límpida nas águas de Gibraltar. Mas eu sei que não há regresso: eu mesmo to disse."


 


in, No teu deserto, pp. 118-119, Oficina do Livro, 1.ª edição

Eva Luna, Isabel Allende

"Chamo-me Eva luna, que quer dizer vida (...) Nasci no quarto dos fundos de uma casa sombria e cresci entre móveis antigos, livros em latim e múmias humanas, mas isso não me tornou melancólica, porque vim ao mundo com um sopro de selva na memória."


in, Eva Luna, pp. 9; 22.ª edição DIFEL


 


Desde que li a obra Paula, de Isabel Allende, que a escritora chilena se tornou uma das minhas escritoras preferidas.


O meu maior orgulho é ter praticamente todas as suas obras, aguardando, com ansiedade, o lançamento de mais uma nova obra.


A literatura de Isabel Allende tem algo de fantástico que nos faz sonhar e caminhar lado-a-lado com as suas personagens. O seu poder de descrição é maravilhoso.


Isabel Allende dispensa apresentações. Tem o seu nome em muitas bibliotecas pessoais e é querida por muitos leitores em todo o mundo.


 


Deixo apenas uma pequena citação que mostra como é bom escrever e como as palavras aparecem numa folha branca (no nosso tempo, no ecrã de um computador) com tanta facilidade, sem pensar, apenas escrever.


 


"Acordei de madrugada. Era uma quarta-feirta suave e um pouco chuvosa, em nada diferente de outras na minha vida, mas esta guardo como dia úncio, reservado só para mim. (...) Preparei um café forte, sentei-me em frente da máquina, peguei numa folha de papel limpa e branca, como um lençol recém-engomado para fazer amor e introduzi-a no carreto. Senti qualquer coisa de estranho, como um arrepio agradável pelos ossos, pelo caminho das veias sob a pele. Suspeitei que aquela página estava à minha espera desde há anos, que eu tinha vivido para aquele instante e desejei que a partir daquele momento o meu úncio mester fosse agarrar as histórias suspensas no mais ténue ar, para as fazer minhas. Escrevi o meu nome e me seguida as palavras surgiram sem esforço, uma coisa entrelaçada noutra e em mais outra. As personagens desprenderam-se das sombras onde tinham permanecido ocultas durabte anos e apareceram à luz dessa quarta-feira, cada uma com o seu rosto próprio, voz, paixões e obsessões.


(...)
Ninguém me interrompeu e passei quase todo o dia a escrever, tão absorta que até me esqueci de comer. Às quatro horas da tarde vi surgir em frente dos meu olhos uma chávena de chocolate-- Toma, trago-te uma coisa quente..."


in, Eva Luna, pp. 262-263; 22.ª edição DIFEL

A Mala de Hana, Karen Levine

Naqueles dias em que raramente aparecia por aqui, devido ao cansaço físico e psicológico, dediquei-me inteiramente ao meu maior prazer: a leitura.


Foram muitos os livros que devorei, uns óptimos; outros nem por isso. Mas, como eu habitualmente digo, não sou ninguém para criticar o trabalho dos outros. Não sou escritora, nem especialista em literatura, apesar de ter estudado essa área a fundo. Por isso, quando faço uma critica a um livro que li, é apenas como leitora e não como crítica literário (I wish).


 


Durante aquele período de marasmo total, um dos livros que me deliciou foi A Mala de Hana. Mais uma obra que fala sobre o Holocausto na vida das crianças.


Já devem saber o meu fascínio sobre esse tema e, por ser um relato de uma história verídica, A Mala de Hana passou a constar na lista dos meus livros preferidos.


Hana vinha do seio de uma família calorosa e dedicada, chefiada pelo pai, Karel, e a mãe, Marketa. Tinha uma vida feliz ao lado do seu irmão, George, onde brincavam com os dois gatos e com a cadela Sylva. Mas, aos olhos do regime de Hitler, tinham uma coisa diferente das outras pessoas, eram judeus.


A liberdade dessas duas crianças terminou com a entrada das tropas de Hitler na Checoslováquia. Só podiam sair de casa a determinadas horas do dia; tinham de usar uma estrela de tecido amarelo cosida aos casacos, onde estava escrita a palavra Jude; deixaram de poder brincar na rua, ir ao cinema ou a qualquer acontecimento desportivo.


 


Depois dos pais serem presos pela Gestapo, foi a vez das crianças. Hana e George foram deportados para um antigo quartel militar, em Theresienstadt. Mas o seu destino final seria outro.


A 23 de Outubro de 1944, depois de viver dois anos na caserna Kinderheim, em Theresienstadt, o campo de concentração na Checoslováquia e com apenas 13 anos de idade, Hana desceu de dentro do vagão do comboio, onde não havia comida, água, nem casa-de-banho, e chegou a Auschwitz.


Levou consigo uma mala castanha e nela arrumou as roupas e alguns dos seus desenhos preferidos. Lavou o cabelo e fez um rabo-de-cavalo. Queria estar bonita para o seu reencontro com o irmão, o qual já tinha sido deportado para Auschwitz.


 


O reencontro dos irmãos nunca aconteceu!


 


Quando Auschwitz foi libertado, em Janeiro de 1945, George tinha 17 anos. Era um jovem que tinha perdido as forças, mas não a esperança de reencontrar a sua irmãzinha. Meses depois de estar à procura da irmã, uma amiga de Hana reconheceu-o na rua e deu-lhe a notícia que George não queria ouvir: Hana foi morta nas câmaras de gás em Auschwitz no dia a seguir a ter chegado.


 



 


A história de Hana chegou ao grande público graças a uma jovem japonesa, Fumiko Ishioka, a qual quis mostrar ao Japão o que tinha sido o Holocausto e como foi sentido nas crianças. Foi graças a Fumiko que, após ter recebido uma mala castanha com o nome Haba Brady escrito em grossas letras brancas, para colocar numa exposição com outros artefactos do Holocausto, que Hana voltou a ser falada. Fumiko não descansou enquanto não soube mais sobre a proprietária da mala e foi assim que chegou até George, o irmão de Hana que tinha emigrado para o Canadá e que tinha reconstruído a sua vida com o ofício que aprendeu nos campos de concentração.


 


George apenas diz: “E agora, graças a Fumiko e a vocês ... a Hana está a viver o seu sonho.”